O evento, transmitido pelo canal do TRF2 no Youtube, marcou o encerramento da exposição “Projeto Memória – Lélia Gonzalez: Caminhos e Reflexões Antirracistas e Antissexistas”, realizado em parceria entre a Presidência do Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF2) e o Centro Cultural Justiça Federal (CCJF), no Rio de Janeiro.
A Sala de Cinema do CCJF foi o local escolhido para a exibição, na tarde desta sexta-feira, 13/3, do documentário com depoimentos de amigos, familiares e pesquisadores, que compartilharam memórias pessoais e análises sobre o pensamento e o legado da intelectual brasileira Lélia Gonzalez.
Pioneira na pesquisa acadêmica sobre raça, gênero e classe no Brasil, autora, ativista, professora, filósofa e antropóloga, ela teve sua trajetória acadêmica, política e pessoal apresentada em textos e imagens distribuídos em 18 painéis que compuseram a exposição “Projeto Memória – Lélia Gonzalez: Caminhos e Reflexões Antirracistas e Antissexistas”, montada na Galeria Central do espaço.
Após a exibição do documentário - produzido pela Associação Amigos do Cinema e da Cultura (AACIC), entidade sem fins lucrativos, com apoio da Fundação Banco do Brasil - foi apresentado um vídeo com mensagem gravada pelo Ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ) Benedito Gonçalves.
Para o magistrado, a memória das grandes intelectuais não pertence apenas ao passado, ela continua a iluminar o presente e orientar o futuro: "É nesse espírito que saúdo todos os participantes do Projeto Memória Lélia Gonzalez, iniciativa que reafirma o valor de preservar trajetórias que ajudaram a ampliar o horizonte democrático do nosso país", elogiou.
“Nos anos que antecederam a nossa Constituição Federal, suas reflexões contribuíram para fortalecer o debate público sobre igualdade racial, participação política e reconhecimento da diversidade cultural como o fundamento da vida democrática", completou.
Debate
Em seguida, foi realizada, ainda na Sala de Cinema, uma mesa de debate, transmitida pelo canal do TRF2 no Youtube. Compuseram a mesa o Desembargador Federal Julio Cesar de Castilhos Oliveira Costa, Presidente da Comissão de Equidade Racial e de Gênero do TRF2, representando o Presidente da Corte, Desembargador Federal Luiz Paulo da Silva Araújo Filho; o Juiz Federal Carlos Adriano Miranda Bandeira, Gestor Local do Pacto Nacional de Equidade Racial no Poder Judiciário, lançado em 2022 pelo Conselho Nacional de Justiça - CNJ (mediador do diálogo); a Juíza Federal Adriana Alves dos Santos Cruz, Titular da 5ª Vara Federal Criminal do RJ; e o Sr. Rubens Luiz Rufino de Lima, Diretor-Executivo do Instituto Lélia Gonzalez e filho da homenageada.
Também prestigiaram o evento, dentre outras autoridades, o Desembargador Federal Rogério Tobias de Carvalho; o Juiz Federal Auxiliar da Presidência do TRF2, Frederico Montedonio Rego; Juízes Federais, Procuradores da República, Defensores Públicos, representantes de entidades não governamentais, como a Fundação Cultural Palmares; servidores da Justiça Federal; e convidados.
Após o Desembargador Federal Julio Cesar de Castilhos Oliveira Costa abrir o evento, foi a vez de o mediador, Juiz Federal Carlos Adriano Miranda Bandeira, fazer uso da palavra. O magistrado afirmou que o debate sobre o legado de Lélia Gonzalez é uma oportunidade para o Judiciário refletir sobre o seu papel na promoção da equidade racial e no combate ao racismo na sociedade brasileira.
Em seguida, foi a vez de o Sr. Rubens Luiz Rufino de Lima, Diretor-Executivo do Instituto Lélia Gonzalez se manifestar. "Em primeiro lugar, é um prazer, uma honra estar aqui. Iniciativa como essa é muito importante e necessária, principalmente partindo de um dos Poderes da República, que é o Poder Judiciário, até porque, para que a gente consiga ter a integração do povo nas nossas lutas, todos os Poderes têm que estar unidos".
Também fez uso da palavra a Juíza Federal Adriana Alves dos Santos Cruz. A magistrada foi secretária-geral no CNJ, no biênio 2023-2025, sendo a primeira mulher negra a ocupar esse cargo. Além disso, foi uma das idealizadoras do Encontro Nacional de Juízas e Juízes Negros, do Fórum Nacional contra o Racismo e participa do coletivo de Juízas e Juízes negros: “A caminhada do coletivo de Juízas e Juízes negros demonstra e só ratifica os ensinamentos de Lélia de que nós precisamos realmente nos mobilizar, ocupar os nossos espaços onde quer que estejamos e essa foi a proposta, esse foi o compromisso assumido pela magistratura negra", destacou.
Por fim, foi a vez de o Desembargador Federal Julio Cesar de Castilhos Oliveira Costa, Presidente da Comissão de Equidade Racial e de Gênero do TRF2, atentar para o fato de que todas as políticas que foram implementadas pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) nos últimos anos sobre o tema, vão ao encontro do que Lélia Gonzalez já preconizava há décadas. "Quando eu olho a carreira da Lélia, percebo que ela já falava, na sua época, da questão da interseccionalidade [conceito que analisa como diferentes formas de discriminação e opressão se cruzam e interagem na sociedade], de forma pioneira, em suas obras", destacou.
O projeto
A realização do Projeto Memória Lélia Gonzalez no CCJF é desdobramento de uma iniciativa que teve início no Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1), em Brasília, em novembro de 2025, onde a programação foi coordenada pela Juíza Federal Mara Lina Silva do Carmo. No Rio de Janeiro, a ação foi promovida pela Presidência do TRF2 em parceria com o CCJF, com a Comissão de Cidadania e Direitos Humanos do TRF2, com as Comissões de Equidade Racial e de Gênero do TRF2 e da Seção Judiciária do Rio de Janeiro (SJRJ) e com a Gestão Local do Pacto Nacional do Judiciário pela Equidade Racial.
A realização do projeto na capital fluminense amplia seu alcance e fortalece o compromisso institucional da Justiça Federal da 2ª Região com a promoção da equidade racial e de gênero, convidando o público a conhecer e refletir sobre a atualidade do pensamento da intelectual e militante, considerada uma das mais importantes pensadoras brasileiras do século XX.
Lélia Gonzalez
Nascida em Belo Horizonte, Lélia Gonzalez (1935–1994) construiu sua trajetória acadêmica e política principalmente no Rio de Janeiro, onde atuou como docente da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), pesquisadora e ativista. Ao longo de sua vida, desenvolveu reflexões pioneiras sobre racismo, sexismo e cultura brasileira, destacando o papel central das mulheres negras na formação social do país. Entre suas contribuições mais originais está o conceito de Pretuguês, no qual evidencia a profunda influência das línguas e culturas africanas na formação do português falado no Brasil.